A degradação da gente diferenciada (ou Querida São Paulo)

Se São Paulo fosse uma senhora de 458 anos lhe mandaria o texto abaixo em um cartão. Como não se trata de uma pessoa uso deste meu espaço para compartilhar este texto. Mas atenção! Independente da sua relação com a chamada “gente diferenciada”, o texto abaixo pode acabar com seu dia.
Querida São Paulo
Parabéns por seus 458 anos. Deixa eu te contar um negócio.
Se tem um algo que me angustia com grande frequência é a quantidade de mendigos, moradores de rua e outras pessoas em condições sub-humanas vivendo em suas ruas – com maior intensidade sob seus viadutos e espaços escuros, buscando o esquecimento. Estamos falando de pessoas sem perspectiva alguma de vida, que andam pelas ruas com olhares perdidos e a eterna imagem de quem clama por ajuda.
Talvez o que mais me assusta é o fato de tal degradação da “gente diferenciada” me atingir apenas em alguns momentos da vida. Significa que já estou um pouco anestesiado com esse seu visual desconcertante. Não é incomum passar ao lado dessa situação e ignorar a presença destas pessoas e simplesmente não sentir nada ao passar por cima de um ser humano, repito um ser humano, que está dormindo no frio, exposto a toda sorte de males e doenças.
Embora te ame, São Paulo, essa minha pseudo-relação com estes sujeitos é o que mais me incomoda. Muito mais que o trânsito, a pessoa do prefeito que se diz perfeito Kassab ou a classe média-alta imbecil que caminha por aí. Embora haja sempre que se lembrar do quanto a cidade tem coisas únicas e espetaculares - vide lista do Xico Sá.
Duas imagens me levaram a escrever esse texto neste blog e dedicar especialmente para senhora neste dia que comemora mais um ano de existência. A primeira de um senhor muito velho deitado em uma calçada numa tarde fria de chuva com a bunda de fora ao lado de um vômito gigantesco de macarrão com salsicha. A segunda vem da foto que ilustra este post, publicada no R7, de uma galeria de imagens da operação da Polícia Militar para desocupar a Cracolândia (lugar que é o verdadeiro Walking Dead, e não é brincadeira).
Eu sei que este texto foge da proposta deste blog, e talvez não seja o lugar apropriado para me dirigir para a senhora, mas é o espaço que tenho disponível para compartilhar tamanha tragédia. Espero que São Paulo pense no que faz com suas pessoas, sua maior riqueza.
Postar um comentário
Comente, explique, destrinche, participe.
Todos os comentários passam por moderação para evitar quaisquer problemas.
Obrigado pela atenção.